O que faz uma boa história ser boa?

A história inicia com uma grande confusão. Personagens correm pra lá e pra cá até que o protagonista, sem saída, se vê com perspectiva zero de se livrar daquela enrascada com vida. De repente surge outro grande personagem, o típico estereótipo de um guerreiro, ou um artefato mágico incrível, salvando o herói e sendo um verdadeiro estepe para a aventura continuar sem intervenções, conforme o autor havia planejado.

Em outro caso, o personagem principal se mostra um zero à esquerda. Não sabe fazer nada e não conhece nenhum detalhe do universo que o espera. Em uma típica jornada do herói, ele terá seu chamado para a aventura (geralmente motivado por algum tipo de profecia ou por uma questão familiar) e viverá cada etapa dessa escada evolutiva da história até chegar ao embate final, desafiando alguém ou algo que deve ser derrotado, de preferência com magnitude colossal.

Em qualquer um desses caminhos, experimente uma trairagenzinha inesperada de um personagem próximo, que vai dar aquele clima empolgante e a emoção para o final da jornada. Adicionamos também mais alguns temperinhos, como uma maldição aqui, um item mágico ali e uns animais impressionantes em outro canto. Pronto.

Não tenho como provar qual a porcentagem exata de histórias publicadas recentemente, falando mais sobre de fantasia e aventura, seguem exatamente um desses modelos. Mas, acho que se você for puxar pela memória, pelo menos os livros desses gêneros que leu atualmente, vai conseguir encaixar vários deles em um dos dois caminhos.

Não quero abrir uma discussão do que é bom ou ruim, nem se existe uma fórmula mágica para um bom resultado, mesmo porque tenho apenas o meu critério pessoal, experiências e cultura (o que não significa absolutamente nada), e nem um livro publicado eu tive. A ideia aqui é, partindo desses dois formatos usados incessantemente, descobrirmos juntos o que boas histórias têm em comum, o que pode ser realmente necessário para que elas funcionem e como a inovação pode contribuir ou não em alguns casos.

Pra começar, e não ter apenas opiniões minhas, fui até um grupo muito legal que participo há muito tempo no Facebook, o Livros de Fantasia e Aventura (veja aqui e participe), perguntar aos meus colegas e membros o que realmente interessa para eles na hora de ler e considerar aquele um bom livro fantástico. Além disso, também joguei a pergunta no Twitter (você pode me seguir clicando aqui) para ver o que alguns seguidores pensam a respeito. Vamos ver o resultado?

1 – Herói

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Um protagonista bom não precisa ser necessariamente um personagem “invencível”, que supera todas as dificuldades e sai sempre vitorioso. Na verdade, o que gostamos muitas vezes de ver em um herói é sua capacidade de tomar decisões e de avaliar os problemas com um olhar diferente, mais do que força. Além disso, o autor precisa dar complexidade e profundidade a ele para que fique interessante. Como? Explorando mais exemplos e ações que definam sua personalidade, mostrar realmente sua essência, e não tentar transmitir isso por meio de palavras.

Outra coisa que acaba oferecendo certa resistência aos leitores é existir sempre um Deus Ex Machina pra resolver as dificuldades mais importantes, isso acaba tirando um pouco da autonomia do personagem. Em qualquer mundo, fictício ou real, o herói também precisa causar empatia, ser crível e ao mesmo tempo surpreendente, intrigando o leitor a querer conhecê-lo cada vez mais e acompanhar sua jornada até o fim.

2 – Equipe

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Formar um grupo só porque a maioria dos livros do gênero usa desse artifício pode ser um tiro no pé para um autor mais inexperiente. Tudo porque eles não podem servir apenas como side-kicks do personagem principal e, na verdade, o ideal é que sejam exatamente o contrário. Os secundários, quando bem desenvolvidos no que diz respeito a personalidade, podem se tornar tão importantes quanto o protagonista, e isso não precisa ser um problema para o autor. Ter personagens fortes à mão mostra que sua história também tem pontos importantes e permite arriscar mais. O grupo de companheiros fica mais atraente quando há uma boa diversificação tanto em habilidades quanto em características físicas.

Finalizando, da mesma forma como o herói, personagens secundários são realmente bons quando há profundidade e boa exploração de caráter, objetivos e motivações. Um grupo com misturas interessantes e completamente diferente pode ser o ponto principal e fator mais importante para se criar uma história realmente intrigante.

3 – Desafios

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Quando falamos de jornada do herói, um dos pontos principais que pode dar a virada em uma história (seja para o bem ou para o mal) é o chamado para a aventura e a negação a ela. Nesse ponto da trajetória muitas cartas são jogadas na mesa e, para que ela continue evoluindo, o argumento precisa ser inteligente e desafiador, gerando expectativa ao público para acompanhar o desenvolvimento da trama.

O que muita gente falou nas discussões que sugeri, e que pode tornar as coisas bem interessantes, é, nesse momento da história, fazer com que o protagonista esbarre em conflitos internos e psicológicos, algo que realmente torne a jornada difícil, dura, e que gere perdas. A história não precisa ter necessariamente um vilão clássico para funcionar, mas se existir e suas motivações forem tão bem exploradas quanto possível, com a mesma importância que falamos de um protagonista, pode ser a diferença crucial de um bom resultado.

Uma forma de deixar tudo isso ainda mais legal é quando podemos notar esses desafios particulares do personagem principal como verdadeiras referências a outras linhas de discussão. Trazer ensinamentos filosóficos é algo difícil de atingir, mas quando se consegue as coisas ficam muito interessantes, além de contribuir para que uma identificação do leitor aconteça e seu interesse aumente ainda mais.

4 – Aventura

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Existem infinitas possibilidades de se apresentar uma ideia e desenvolver um roteiro intrigante. Para que a ação realmente comece, o leitor precisa estar confortável com a história, entendendo os ambientes e as descrições feitas pelo autor, ajudando-o a embarcar junto em busca dos novos acontecimentos que virão. Não é que, necessariamente, o mundo apresentado precisa estar completamente exposto para quem está lendo, acho que até um pouco de mistério em tudo isso pode dar um tom ainda mais intrigante, mas a jornada precisa fluir com tranquilidade.

Para que tudo isso que foi falado caminhe em sintonia, uma das sugestões mais interessantes que recebi nas discussões é de que o autor procure trabalhar muito em busca de uma boa mistura entre as inovações, referências e até alguns clichês que vai utilizar, que nem sempre são ruins, dependendo em como são encaixados na história. Acho que nesse ponto da história é mão na massa mesmo, lapidar o texto incessantemente até que a leitura flua o mais natural possível.

A aventura, quando bem bolada e oferecendo boa exploração ao leitor, pode ser uma ferramenta das mais importantes para que a história dê certo, e precisa convencer o leitor, fazer com que ele se sinta ligado ao roteiro. A “personalidade” que ela traz tem uma importância tão grande quanto à dos personagens principais, secundários e do vilão (seja um personagem ou uma questão apresentada).

Ah, e claro, pra não precisar fazer nada disso e ela ficar boa só tem um jeito: Dragões!!!

5 – Autor

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Pode parecer o maior clichê da história, mas o autor precisa, definitivamente, colocar o coração naquilo que está fazendo. A gente conhece inúmeros casos de pessoas, não apenas no ramo literário, que não são necessariamente supertalentos mas, por meio do trabalho duro e da vontade em fazer algo legal, obtiveram um grande sucesso. Muitas vezes o amor pelo que se faz acaba superando até mesmo o talento.

O leitor consegue sentir quando um autor realmente se doou por aquele resultado. Se você for um leitor voraz, essa percepção se aguça ainda mais, começando a entender melhor um texto fluido, bem resolvido e trabalhado com muito suor.

Como ouvi uma vez de Eduardo Spohr, autor de A Batalha do Apocalipse entre outros livros de fantasia nacional, o escritor precisa escrever. Pode parecer engraçado mas muitos se esquecem disso, considerando seu primeiro texto o mais incrível já feito. Não há espaço para apego no ramo da escrita.

Também não quero dizer que o primeiro texto de um autor não possa virar um incrível sucesso, mas isso é realmente difícil porque uma ideia, na maioria das vezes, precisa ser estressada até seu limite para se descobrir se ela ainda assim continua funcionando. Terminar de escrever um livro é apenas o começo, porque provavelmente ele será reescrito muitas outras vezes até ficar no ponto certo.

Outras coisas importantes no momento da criação é a busca por referências e o estudo em como usá-las de forma eficaz em sua história, focando também em que público se quer atingir com aquilo que será contado, uma trama complexa, na maioria das vezes, funciona com um público mais adulto, por exemplo. Pensar no público a ser impactado e respeitar suas características é muito importante.

E isso é só um pouquinho de tudo que conversamos sobre o que faz, para muitos leitores, uma história boa ser realmente boa. Como disse no começo, não existe fórmula perfeita de sucesso, mas se juntarmos trabalho duro, pesquisa, desenvolvimento e paixão pela obra, provavelmente o objetivo de uma boa história será atingido, e o resultado melhor do que o esperado.

Um agradecimento especial a todo o pessoal do grupo Livros de Fantasia e Aventura, no Facebook, e a quem participou enviando sugestões pelo Twitter. Muito obrigado! 

Gostou do post, quer sugerir algo ou só me xingar pelo monte de porcaria que falei? Comenta aqui embaixo. Vai ser legal ler suas considerações ou te ajudar a aliviar o stress. 🙂

 

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3 comentários em “O que faz uma boa história ser boa?”

  1. Valeu, Ernani.
    Na verdade, nas discussões, a gente juntou o vilão aos desafios. Falando de tudo isso junto, pra não ficar separando tudo apenas por linhas de personagens. Abraço! 🙂

  2. Gostei bastante do texto; concordo com tudo o que foi dito, mas principalmente sobre os personagens. Ter personagens interessantes, críveis e com um background bem construído talvez seja a coisa mais importante. Afinal, são eles que fazem a história. Junto a isso, porém, é muito importante ter cenários e o mundo onde a história se passa (relação entre os diferentes reinos ou países, história, cultura, religiões) muito bem construídos, pois não são apenas os personagens que fazem a história.

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